terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

CLUBE DO CAPITÃO AZA



Capitão AzaEntrando em nossa máquina do tempo, você amigo leitor (a), segue rumo ao ano de 1976, exatamente numa segunda-feira, dia 12 de julho, cuja grade de programação da TV Tupi, canal 4 de São Paulo era a seguinte: 11h30 TVE - Circuito Nacional, 12h00 Futebol (Reprise-Cor),13h30 Panorama, 14h15 Júlia (série-Cor), 14h15 A Lenda dos Pistoleiros, (Filme-Cor), 15h15 As Cruzadas (série-Cor), 15h45 Clube do Capitão Aza (Cor), 18h05 Speed Racer (Cor), 18h35 Papai Coração (Cor), 19h10 Os Apóstolos de Judas (Novela-Cor), 20h00 Xeque Mate (Novela-Cor), 21h00 Segunda Super: Cartas na Mesa (Cor), 22h00 Police Woman (série-Cor), 23h00 Factorama, Edição Nacional (Cor), 23h20 Operação Esporte e 00h20 Longa Metragem. Um horário considerado muito especial durante os dias da semana, chamava a atenção da gurizada e adolescentes em geral, era o Clube do Capitão Aza, que chegou a ser exibido no horário matutino, mas na maior parte das vezes, encaixava-se no meio da tarde, entre 15h30 às 18h30, de segunda à sexta. Ele iniciava com a canção tema, e aparecia dentro de uma nave espacial, onde havia um efeito de estrelas passando ao fundo, o que dava a impressão de que estava viajando pelo espaço. Com voz firme e enérgica ele fazia então a abertura com a contagem regressiva, e pronunciava o seguinte refrão: “Alô, alô Sumaré! Alô, alô Embratel! Alô, alô Intelsat! Alô, alô criançada do meu Brasil! Aqui fala o Capitão Aza, comandante-chefe das forças armadas infantis desse Brasil!” 

 

Impossível negar que ele foi um marco na história da televisão brasileira e o grande precursor da programação infanto-juvenil. Às vezes até me surpreendo quando algum amigo não se recorda dele, mas sim, da exibição dos seriados e desenhos. Vestindo-se como super-herói e trazendo para a “telinha” o que de melhor havia em seriados e animações para a época, era praticamente impossível derrotar a audiência de Wilson Vianna, o Capitão Aza. Ídolo da garotada das gerações dos anos 60 e 70, seu programa manteve a liderança absoluta de público por 14 anos seguidos, de 1966 a 1979, só saindo do ar devido ao fechamento da Rede Tupi, que por sua vez foi a estação pioneira do sistema de televisão nacional. O Capitão Aza surgiu em 1966 para destronar o Capitão Furacão da Rede Globo, cujo programa de temática voltada para o mar liderava a audiência até o momento. A direção da TV Tupi, decidiu fazer então, um programa com temática voltada para o ar e o espaço, e para isso resolveram buscar apoio no Ministério da Aeronáutica que sugeriram o nome “Capitão Aza” com Z, como forma de homenagem ao Capitão Adalberto Azambuja, um herói da FAB que havia combatido na Segunda Guerra Mundial e era conhecido por “Aza” entre os aviadores. O personagem acaba caindo como uma luva para Wilson que então passa a usar a farda de super-herói: uniforme impecável da aeronáutica, medalhas, capacete de piloto com óculos de lentes negras e o “A” com duas asinhas pintadas. Reza uma lenda, que devido a correria nas gravações do programa, e nos dias de excesso de atividades, Wilson chegaria a encarnar o Capitão 24 horas, sendo que num dia, ao se envolver em um acidente de carro na Zona Sul do Rio, o outro motorista ao vê-lo sair de seu veículo devidamente uniformizado de super-herói, espantado, “deu no pé” apressadamente sem discutir! 


Criança que ouvisse aquela frase na abertura do programa, não tinha jeito, batia continência e corria prá frente da televisão a espera dos desenhos e seriados. É também interessante notar como muitas idéias deste programa acabariam por influenciar muitos outros que estariam por vir, como por exemplo o Xou da Xuxa, que também faria a entrada da apresentadora em uma nave espacial e também adotaria música de abertura com contagem regressiva. Mas além da emblemática figura do Capitão e de sua simpática assistente, a Martinha, o que mais de interessante havia nesse programa que tanto fascinava as crianças e os jovens, era a programação com o que de melhor havia na época em termos de desenhos e seriados, a maioria recém-chegados ao Brasil. Foi no programa do Capitão Aza o lançamento dos seguintes seriados e desenhos: Ultraseven, Vingadores do Espaço, Ultraman, Ésper, Robô Gigante, O Regresso de Ultraman, A Princesa e o Cavaleiro, Taro Kid, Sawamu, Fantomas, Shadow Boy, Super Dínamo, O Judoca, Ás do Espaço, Speed Racer, Guzula, Super-Homem do Espaço, King Kong, Príncipe Planeta, Zoran, Cyborg 009, O Menino Biônico, Viagem ao Centro da Terra, Gato Corajoso e o Rato Minuto, Super Presidente e O Sombra, Joe 90, Stingray, Os Thuinderbirds, Capitão Escarlate, Jeannie é Um Gênio, A Feiticeira, Bom-Bom e Mau-Mau, Toro e Pancho, A Formiga e o Tamanduá, Corrida Maluca e Os Marvel Super Heróis Shell, ou Clube Marvel, que ganhou uma versão brasileira e abertura especial de lançamento dos heróis pela primeira vez aqui no Brasil (Homem de Ferro, Namor, Hulk, Capitão América e Thor). Além da estréia do “cabeça de teia”, o Homem-Aranha! Acostumados com histórias estáveis e de poucos problemas, os telespectadores mirins foram surpreendidos com a chegada do Clube Marvel e suas histórias de temática forte para a gurizada: Hulk, um monstro amaldiçoado, sempre perseguido pelo exército e impossibilitado de viver seu grande amor; Capitão América, o herói da Segunda Guerra que havia sido criado para combater os nazistas; Homem de Ferro, o herói que tinha problemas cardíacos e usava uma armadura computadorizada para sobreviver; Quarteto Fantástico, onde o Coisa era inconformado com a sua aparência bizarra; Thor, o Deus do trovão que por ter sido intolerante com seu pai, havia sido obrigado a conviver entre os mortais onde acabaria se apaixonando. Nesse time, o que trazia histórias um pouco mais leves e descontraídas era o Homem-Aranha, que entre um combate e outro, e mesmo tendo lá os seus problemas sempre arranjava um jeito para fazer piadas com os seus inimigos. 



Vale lembrar que nesta mesma época também, chegava ao Brasil, revistas em quadrinhos dos Heróis Marvel. A de número zero era distribuída gratuitamente nos postos Shell desde que o veículo fosse abastecido. A letra da canção-tema do Clube Marvel considerada hoje uma pérola da dublagem nacional será mostrada a seguir. Será que alguém ainda se lembra de como cantá-la? "Erga a cabeça, altivo no andar, nunca se aborreça, sorria no andar, por mais que você cresça, é sempre bom lembrar, que é melhor ser assim! Pois você é, você é, você é, você é...mais um valente herói do Clube Marvel, sempre avante a vibrar, um gigante a estudar, e recorda a canção do Clube Marvel, o atraso fica fora, nosso Clube é pra frente, fique atento toda hora, nossa turma nunca mente, energia em cada ação, como faz um campeão, um real valente herói, do Clube Marvel, levante sempre a tempo, seja inteligente, nunca tenha medo, não fale mal do ausente, aprenda a liderar, e sempre a contar, que é melhor ser assim! Pois você é, você é, você é, você é...mais um valente herói do Clube Marvel!”. O programa do Capitão, ao contrário de muitos infantis de utilidade duvidosa que já vimos por aí, ainda possuía um alto teor educativo, com Wilson sempre preocupado em ensinar às crianças sobre ética, senso de responsabilidade, respeito e liderança. E é bem verdade que isso contribuía bastante para o resgate e a valorização do espírito cívico de cada um, mesmo depois que a TV fosse desligada, afinal as crianças sempre gostam de imitar os seus heróis. Complementando esse trabalho televisivo, o Capitão ainda se dedicava às aparições ao vivo: comparecia a shows beneficentes, visitava escolas, e também desfilava durante a Semana da Pátria em meio aos alunos, o que tornava a data ainda mais especial para as crianças, que nestes dias alinhavam o uniforme do colégio, prendiam a fitinha verde-amarela no bolso da camisa, e torciam para que ele aparecesse em seu colégio. 


Capitão Aza tinha também, algumas manias que se tornaram marcas próprias, interessante observar como alguns gestos dos apresentadores de televisão, ficam gravados na memória da gente. Uma passagem engraçada, e no bom estilo super-herói, era a mania que ele tinha de mostrar o bíceps diante das câmeras, dizendo que o Capitão não ficava doente porque se tratava ou tomava remédio antes da doença chegar. Obviamente isso nos encorajava a visitar o médico ou aceitar das nossas mães aqueles xaropes difíceis de engolir. Uma outra era o modo como ele fazia questão de mostrar os guardas como sendo os grandes amigos das crianças. É bem verdade também, que nessa época a ameaça das drogas e da violência era menor. O máximo que poderia acontecer era uma briga de rua ou no colégio, todo arranhado ou com bilhetinho do diretor para os nossos pais. Por outro lado, as “drogas” eram aquelas balas, doces ou pirulitos que pintavam a boca de vermelho; a “overdose” era a dor de barriga e o nosso inferno era esquecer de escovar os dentes e depois se arrepender quando estivéssemos sentados na cadeira do dentista. Apresentadores como o Wilson Vianna, o nosso Capitão Aza, é o tipo de ser humano que a gente quer que nunca partam, que estejam presentes eternamente em nossas vidas. Infelizmente, no dia 3 de maio de 2003, faleceu vítima de infarto. Com 75 anos, deixou-nos uma bela obra e uma galeria de recordações boas de seu programa. Depois do Clube do Capitão Aza, até hoje não apareceu na televisão, algo parecido com lançamento de seriados e desenhos que assim como ele, permanecem vivos em nossas lembranças. Alô! Alô Piracicaba que eu adoro tanto! Câmbio e desligo! FIM